Projeto Bairro Amigo do Idoso no Brás e na Mooca retoma encontros de pesquisa

Começou ontem a segunda etapa de pesquisa do Projeto Bairro Amigo do Idoso no Brás e na Mooca, abrindo o calendário dos Grupos de Discussão, para que os moradores desses distritos da Zona Leste da Capital, em São Paulo. Eles agora começam a debater e opinar com base nos resultados coletados na fase anterior.

O projeto vem sendo realizada desde 2015, por uma equipe comandada pela professora Bibiana Graeff e teve, na primeira fase, a participação de 110 participantes, a maioria moradores idosos.

Reunião do projetodo Projeto Bairro Amigo do Idoso da Mooca e Brás, na Prefeitura Regional da Mooca, abrindo o calendário de debates. Foto: imprensa/PRMooca

Os bairros da Mooca e do Brás foram escolhidos por serem uns dos mais tradicionais da cidade e pela facilidade de estarem ambos sob a gestão da mesma Prefeitura Regional da Mooca. Mesmo antes do início do projeto, tinha-se informações sobre o quão diferente tinham se dado as transformações urbanísticas, ao longo dos últimos anos.

Segundo o SEADE- Sistema Estadual de Análise de Dados- a expectativa é que o bairro da Mooca tenha em 1º de julho de 2018, uma população de 16.775 idosos, o correspondente a 21% da população geral local de 79.662. Em termos estatísticos, o bairro apresenta características demográficas de países muito mais desenvolvidos que o nosso.

O bairro do Brás, tem uma expectativa para 1º de julho de 2018, de uma população de 4.104 idosos, o correspondente a 12% da população geral local de 32.378.

No começo de abril, um evento com a presença de autoridades da área do envelhecimento na Capital, mostrou as primeiras conclusões, que agora serão novamente trabalhadas.

Entre as mudanças dos dois bairros, que ainda não constam oficialmente nos relatórios iniciais das professoras estão os problemas da especulação imobiliária. Enquanto na Mooca as construções são recebidas de certa maneira um sinal de “progresso inevitável”, fruto até da maior segurança do bairro, no Brás a questão da habitação aparece nos problemas. Casas antigas estão se tornando pensões para imigrantes e aumentando muito os preços dos alugueis. Por outro lado, os prédios de grandes construções não correspondem a infraestrutura existente no bairro e assim são vistos de forma negativa.

O Grupo de Discussão de hoje- marcado para acontecer das 9 às 12 horas- teve como tema “Prédios Públicos e Espaços Abertos”. Ele é o primeiro de uma série de oito encontros, sempre às terças-feiras pela manhã, programados até dia 3 de julho.

Prof.ª Bibiana Graeff, coordenadora do Projeto Bairro Amigo do Idoso da Mooca e do Brás. Foto: jornal3idade.com.br

O Projeto Bairro Amigo do Idoso não tem vínculos com o “Programa São Paulo Amigo do Idoso”, do governo estadual. Esse buscou aplicar a metodologia do projeto “Cidade Amiga do Idoso”, da Organização Mundial da Saúde, criado pelo médico brasileiro Alexandre Kalache e pela pesquisadora canadense Louise Plouffe.

Para saber mais sobre esse trabalho, o Jornal da 3ª Idade entrevistou a professora da Graduação e Pós-graduação de Gerontologia da EACH-USP, Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, Bibiana Graeff Chagas Pinto Fabre, que também atua no Programa de Pós-graduação da Faculdade de Direito da USP, no Largo São Francisco, na área de Direitos Humanos.

Jornal da 3ª Idade –Quando nasceu essa proposta de trabalhar esse projeto Bairro Amigo do Idoso?

Prof.ª Bibiana Graeff– A ideia começa em 2011/2012, com uma proposta da professora Maria Luisa Trindade Bestetti, que é arquiteta e também professora da EACH-USP. Ela já conhecia o Guia Global: Cidade Amiga do Idoso, da OMS- Organização Mundial de Saúde, que foi lançado em 2007 e chegou traduzido para o português em 2008. O Guia lançado pela OMS em 33 cidades, entre elas o Rio de Janeiro, listava os itens que uma Cidade Amiga do Idoso deveria ter. E a proposta que ela trouxe foi trabalhar aplicando em bairros de São Paulo.

Jornal da 3ª Idade – Por que os bairros da Mooca e do Brás foram escolhidos?

Prof.ª Bibiana Graeff– Por que nessa época 2011/2012 a Prefeitura Regional da Mooca estava sob o comando do Cel. Rubens Casado, (que depois foi presidente do GCMI) e estava com várias iniciativas em relação ao trabalho com idosos. Eles fizeram campanhas com calçadas, palestras e nos incentivaram a fazer essa pesquisa. Como a Prof.ª ª Maria Luisa não podia, na época, assumir a liderança do projeto, coube a mim essa tarefa. O projeto conta com ela e com a Prof.ª Marisa Accioly Domingues. São três profissionais da Gerontologia, mas com formações diferentes: eu no Direito, a Maria Luisa na arquitetura e a Marisa no serviço social.

Jornal da 3ª Idade – Uma outra experiência de bairro amigo do idoso já tinha sido feito na Vila Clementino, ligado aos professores da UNIFESP. Eles influenciaram esse trabalho?

Prof.ª Bibiana Graeff– Na Vila Clementino eles foram pioneiros em escolher um bairro e implementar a metodologia para o bairro. Nós nos inspiramos muito nesse trabalho deles.

Jornal da 3ª Idade – Como foi desenvolvido o trabalho com os idosos?

Prof.ª Bibiana Graeff– Nos criamos grupos focais e começamos no reunir num espaço cedido na Oficina Cultural Amacio Mazzaropi. Mas tivemos interrupções, pois houve mudanças na Prefeitura Regional, perdemos apoio e não tínhamos nenhum financiamento para a pesquisa. Esse é um projeto que para dar certo tem que ter um tripé importante: sociedade civil, poder público e universidade. Chegamos a publicar dois textos naquela época, mas paramos e aquilo ficou como um estudo piloto.

Jornal da 3ª Idade – Naquela época já estava acontecendo na região do Brás uma nova onda de chegada de imigrantes latino-americanos, para as empresas de confecção. Isso tem algum reflexo na pesquisa?

Prof.ª Bibiana Graeff– Nos primeiros grupos focais que fizemos no começo, com idosos e profissionais, percebemos uma visão muito forte a cerca de problemas relacionados com imigrações recentes. Populações como bolivianos e coreanos foram fortemente associados a diversas dificuldades e problemas no bairro. Isso nos apontou a necessidade de adaptar o método para ouvir essas populações. Quando reformulamos o projeto e submetemos a Fapesp para garantir recursos para a pesquisa isso foi incluído e no Governo Haddad, em 2015, voltamos a ter um diálogo com a Prefeitura.

Jornal da 3ª Idade – Quantas pessoas participaram da pesquisa?

Prof.ª Bibiana Graeff– Contando de 2015 em diante foram 100 participantes nos grupos focais e mais 10 entrevistas individuais. Nessa conta não relacionamos as entrevistas com grupos mistos, de imigrantes. Nós diferentes categorias de participantes. Foram 8 grupos focais na Mooca e 8 grupos focais no Brás. Na Mooca foram grupos de 60 a 75 anos e outra categoria de 75 anos ou mais e uma categoria de profissionais, não somente a que trabalhasse com idosos, mas que tivesse atuação no bairro. Também ao longo do trabalho criamos um grupo de categorias mista. No Brás fizemos a mesma coisa, sem a categoria mista, mas incluindo a categoria de idades mista dos imigrantes.

Jornal da 3ª Idade – Quais foram as principais diferenças que desde o começo da pesquisa vocês perceberam entre os dois bairros?

Prof.ª Bibiana Graeff– Desde o começo já sabíamos que teríamos muitas diferenças. Escolhemos esses bairros já pensando também nisso. Ambos da Zona Leste, onde nossa universidade está situada. Queríamos trabalhar com bairros envelhecidos. A Mooca no Censo de 2010 tinha 19% de idosos, em relação a sua população, o que é um percentual muito elevado. Na época no Brasil o percentual de idosos era de 8.6%. A gente queria fazer a comparação desse bairro, com panorama estatístico de país desenvolvido, com um outro da mesma região, mas com situação limítrofe, que tinha sofrido outro tipo de transformação.

Jornal da 3ª Idade – Quais as principais características dos idosos da Mooca?

Prof.ª Bibiana Graeff– Eles gostam de morar na Mooca e são muito bairristas. A primeira pergunta da pesquisa era exatamente essa: como é ser idoso e viver no bairro? Nós tivemos uma posição muito mais positiva na Mooca e uma visão predominantemente mais negativa no Brás.

Jornal da 3ª Idade – Qual o perfil predominante dos idosos, nos dois bairros?

Prof.ª Bibiana Graeff Nós fizemos um perfil sociodemográfico dos participantes e nos dois bairros a predominância é de mulheres. Na Mooca os idosos moram há mais de 15 anos. No Brás é misturado. Na Mooca além de ser um bairro com muitos idosos é também um bairro que acolhe quem chega no lugar, que mantem as relações de vizinhança e apesar de estar se transformando guarda essas características como vantagens em relação aos outros bairros. Um bairro considerado seguro, quando comparado aos demais da cidade. A segurança pública é exatamente a relação inversa no Brás. Escutamos muito “no Brás só é possível sair até as 18 horas”. Isso dificulta os idosos saírem e voltar no começo da noite.

Jornal da 3ª Idade – A especulação imobiliária também deve estar sendo bem diferente nos dois bairros. Em reportagens que fizemos com idosos, muitos reclamavam dos grandes prédios chegando nos seus bairros. A pesquisa detectou isso?

Prof.ª Bibiana Graeff– Com relação à habitação, os participantes relatam que o custo está muito elevado, tanto na Mooca, quanto no Brás. No Brás, os participantes também apontaram como um problema a transformação de casas antigas em cortiços e pensões.

Jornal da 3ª Idade – O que os novos Grupos de Discussão vão trabalhar?

Prof.ª Bibiana Graeff– Vamos manter grupos permanentes que possam trocar uma convivência e debater cada um dos tópicos específicos.

Calendário de encontros do Projeto Bairro Amigo do Idoso da Mooca e Brás