Como Medellín venceu a violência e se tornou cidade modelo de políticas públicas

Prof. Aníbal Gaviria, ex-governador do estado de Antioquia e ex-prefeito de Medellín com sua esposa no final do encontro da USP. Foto: jornal3idade.com.br

Em meados dos anos 90, a cidade de Medellín, na Colômbia era associada ao cartel de drogas dirigido pelo traficante Pablo Escobar, só emanava notícia de corrupção, desemprego e graves problemas ambientais e por tudo isso era considerada a cidade mais violenta do mundo. Em pouco mais de 20 anos se reinventou e em 2013 foi eleita a Cidade do Ano em um concurso realizado pelo The Wall Street Journal e pelo banco Citibank, em parceria com o Urban Land Institute, dos Estados Unidos. Hoje é considerada uma cidade modelo para o mundo, na implantação de políticas públicas eficientes.

Para contar como aconteceu esse processo de transformação na sua cidade, a segunda maior da Colômbia, capital do Estado de  Antioquia, hoje com 3 milhões de habitantes, esteve em São Paulo, Aníbal Gaviria, ex-governador do estado de Antioquia (2004-2007) e ex-prefeito de Medellín (2012-2015), convidado para o encontro Cidades para a Vida: A Experiência de Medellín, promovido pelo Programa de Saúde Global e Sustentabilidade da Universidade de São Paulo, na quarta-feira, 27 de março.

Durante pouco mais de uma hora de palestra, o ex-prefeito e ex-candidato a presidência do país pelo Partido Liberal, falou das estratégias intersetoriais adotadas em Medellín que podem ser usadas em qualquer outro município, desde que tenham como premissa trabalhar em redes, investir pesado em Educação de qualidade e fazer com que a população ocupe todos os espaços públicos com atividades.

Ele explicou como a redução da violência fez os indicadores econômicos de Medellín darem um salto e multiplicarem as ofertas de emprego. Todas as melhorias resultaram num outro indicador de qualidade: o aumento da expectativa de vida. Do ano de 2001 a 2016, subiu de 71,4 anos para 77,8. Entre os homens, que eram as  maiores vítimas de homicídios a expectativa de vida passou de de 68,2 anos para 76,4.

O sucesso das várias iniciativas Aníbal Gaviria, atual professor visitante na Universidade da Califórnia, em Berkeley, defende ter sido fruto de criação de um comitê universidade-empresa-Estado que sustentou junto aos vários prefeitos que se sucederam, o processo de continuidade.

No final do evento ele falou com exclusividade para o Jornal da 3a Idade, da maneira como trabalhou os idosos no período de “reconstrução” da cidade.

Jornal da 3a Idade – Nos ano 90 haviam notícias tristes sobre como viviam os idosos no meio da brutal realidade da violência da cidade. Como o senhor trabalhou a questão dos mais velhos nesse período?

Prof. Aníbal Gaviria– As ferramentas chaves que utilizamos para atacar os problemas de Medellín foram uma educação, simples e eficiente, e o espaço público como chave para transformação. Para isso tivemos que ir conversar diretamente com as pessoas na periferia. Tivemos que trabalhar as famílias e foi nessa hora que também a realidade do idoso começou a ser tocada. Criamos o projeto Família Medellín que de imediato buscava tirar as pessoas das áreas de risco, encontrar emprego para os seu membros e condições de moradias dignas. Quando a família melhorava os idosos naturalmente ficavam melhores.

Jornal da 3a Idade – Qual era a maior dificuldade dos idosos naquela época?

Prof. Aníbal Gaviria-  A Questão da moradia, sem dúvida. Sempre será. Na política tradicional você promete a terra ou uma casinha pré-fabricada. Quando se está pensando na transformação verdadeira do modo de vida de uma cidade tem que fazer diferente. As inovações de Medellín não seriam possíveis sem um profundo respeito pela sabedoria local, por valorizar as pessoas que conhecem o seu território. Tivemos que fazer um esforço para entender as personalidades da cidade porque elas são coletivas, históricas e uma acumulação de gerações e suas interações com os territórios.

Jornal da 3a Idade –  E como era feito esse trabalho?

Prof. Aníbal Gaviria– Os profissionais do Serviço de Bem Estar Social passaram a ir nas periferias, nas comunidades para falar da necessidade de trabalhar em rede. O que se passava nas periferias é que nunca havia chegado o Estado. E quando chegava era para castigar, perseguir, com muito poder regulatório, negativo e punitivo. Passamos a dizer para as pessoas que elas não estavam excluídas, que eram parte verdadeira de Medellín e que as redes é que iam ajudar a formatar essa nova cidade.

Jornal da 3a Idade – Numa cidade de montanhas a mobilidade dos idosos era difícil e muitos apontam o trabalho que o senhor fez nessa área como fundamental para o sucesso do projeto da cidade e em especial para a integração dos idosos.

Prof. Aníbal Gaviria-A mobilidade é para nós o espaço público por excelência. Um espaço público que faz os espaços públicos conversarem. Não adianta construir uma universidade pública de qualidade se para chegar nela é uma odisseia. Durante 20 anos foram feitos investimentos pesados em ônibus, metrô, bicicletas e calçadas. As pessoas começaram a se apropriar da sua cidade. Não se combate violência com mais violência. A educação é a grande ferramenta para romper a desigualdade de forma estrutural. Apesar disso ser muito falado, são poucos os governos que se comprometem. Nesta perspectiva, nos últimos vinte anos, o foco de Medellín foi contínuo e em todos as áreas de educação: aumentou-se o número de escolas, investiu-se em qualidade de ensino, infraestrutura e, mais importante, na atenção aos professores. Eles são os motores desses processo e é impossível fazer esta melhora se eles não são qualificados ou são mal pagos.

Jornal da 3a Idade –  E os famosos teleféricos que viraram cartão postal de Medellín. No Rio de Janeiro foi construído um semelhante, mas já está parado. Qual o real significado dele para as famílias?

Prof. Aníbal Gaviria– O uso dos sete teleféricos conectam o centro da cidade às regiões montanhosas que facilitam a viagem entre diferentes pontos da cidade, bem como as escadas rolantes elétricas instaladas em áreas especialmente íngremes de Medellín e que diminuem o tempo de deslocamento da população. Nada disso teria sentido isoladamente Esses equipamentos não funcionam isoladamente. Há no entorno escolas, centros culturais, museus e parques. Nossas ruas, universidades e escolas são bonitas. É a ética da estética. Fazemos concursos nacionais e internacionais convidando arquitetos para que essa ética na estética contribua para atacar a desigualdade. Por que se faz coisas bonitas para áreas mais ricas, que supostamente as podem pagar, e coisas feias para as áreas de periferia? Antes o que eram cercados se converteram em centros culturais e presídios ou propriedades de criminosos que se converteram em escolas. Isso mudou a vida de todos. Invertemos a lógica das cidades que fazem a periferia ir para o Centro.