Presidente do Conselho Estadual do Idoso do Amazonas fala da situação da pandemia

Idosos estão morrendo em casa na cidade de Manaus, sem conseguir acionar qualquer tipo de assistência, devido ao colapso que vive os serviços públicos, piorados com a pandemia da Covid-19. A capital do Amazonas vive “cenas de filmes de terror”, segundo afirmação do próprio prefeito Virgílio Neto.

O Amazonas é o estado brasileiro com maior índice de incidência de contaminação pelo novo coronavírus, proporcional a sua população, com 6062 infectados e 501 óbitos, segundo dados  divulgados no último sábado (2/5) no boletim da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM).

Para saber o que o Conselho Estadual do Idoso do Amazonas está fazendo nesse momento difícil, o Jornal da 3a Idade conversou com a sua presidente, a assistente social, Mestre e Doutoranda em Gerontologia, Kennya Mota Brito. Ela está isolada em casa com o marido e os dois filhos, mas trabalhando por telefone.

O Amazonas tem 62 municípios sendo que deles 31  tem conselhos de idosos criados. Em 2019 cinco deles realizaram suas conferências municipais: Manicoré, Tefé, Anori, Nhamundá e Manaus. Na ocasião a principal reivindicação dos municípios estava relacionada à aplicabilidade da lei na questão do transporte aquaviário, que tem pouca fiscalização por conta da extensão do território e não obedece ao direito da passagem com valor de 50%, nesses transportes.

Jornal da 3a Idade – O Amazonas parece que está numa situação desordenada. Por que isso está acontecendo?

Kennya Mota Brito – Nosso Estado está realmente numa situação caótica, mas isso é resultado de anos de corrupção e falta de investimento na área da saúde, que em alguma hora iria colapsar. Infelizmente o Covid-19 serviu para que essa realidade viesse a tona.

Estamos enfrentando muitas dificuldades, com inúmeras situações de violências aos idosos, que nesse momento só dificulta e piora o que já está caótico. O Prefeito de Manaus decretou no mês passado, proibir circulação no transporte público, a retirada da gratuidade da passagem dos idosos, alegando que seria uma maneira de proibir os idosos de saírem de casa, esquecendo várias situações.(leia)Temos idosos que moram sozinhos e que precisam sair para resolver suas coisas e até mesmo buscar ajuda médica. Nós não conseguimos falar pessoalmente com o prefeito. Sabe como é, nessas horas? Prefeito e Governador ficam blindados, mas nem por isso deixamos de nos manifestar. Mandamos ofícios, fizemos ligações, para todos: para o Ministério Público Estadual e também para o MP federal. O problema é que todos os serviços e profissionais ligados a assistência social estão voltados para o trabalho com a pandemia. Os CAIMI- Centro de Atenção Integral a Melhor Idade, da Secretaria Estadual de Saúde do Amazonas e as demais equipes de diferentes serviços foram remanejadas para trabalhar nos hospitais ou serviços para as policlínicas. Os médicos estão fazendo consulta via Chat ou telefone para não deixar os idosos sem assistência, mas nós sabemos que se não tiver alguém ajudando fica difícil para a maioria dos idosos. Na área do atendimento psicossocial, os CIPIDI – Centro Integral de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa também está com as equipes todas trabalhando dentro dos hospitais para ajudar na emissão de atestados de óbito.

Jornal da 3a Idade – Existe informação de que muitos profissionais de Manaus estão se afastando, porque também eles foram contaminados. Essa situação já está sendo percebida?

Kennya Mota Brito – As equipes estão adoecendo, muitas vezes numa equipe de quatro profissionais já temos três doentes. Estamos com idosos nos hospitais precisando de laudo social para fazermos diversos encaminhamentos e não se consegue por falta de profissionais nas equipes, afastados por também eles estarem portadores da Covid-19. Ontem mesmo liguei para a Delegada do Idoso para tentar uma intervenção para um idoso de rua que já estava numa situação muito complicada, por ser diabético e na iminência de uma amputação. Estamos com muitos idosos na rua. Ela disse que não tem equipe para o atendimento: os dois investigadores da Delegacia do Idoso, o motorista e a escrivã que é importante no atendimento estão contaminados e os demais estressados.

Jornal da 3ª Idade – O que o Conselho Estadual do Idoso do Amazonas está fazendo diante dessa terrível situação?

Kennya Mota Brito – O Conselho Estadual está atento ao que está acontecendo na nossa única  ILPI (Instituição de longa Permanência de Idosos) e no abrigo de idosos que temos na Capital: a Fundação Dr. Thomas, que é municipal e o Lar São Vicente de Paulo que é filantrópico. Não temos particulares em Manaus. No Interior existem abrigos que não são exclusivos para idosos e que atendem várias pessoas, de diferentes idades, em situação de vulnerabilidade.

A Fundação Dr. Thomas, como é a gestora da Política Municipal do Idoso de Manaus, tem toda uma estrutura e conta com apoio da Prefeitura, tanto que eles montaram uma enfermaria somente para os casos de Covid-19. Eles têm dois geriatras são pessoas que a gente conhece, bastante envolvidas, mas mesmo assim dos 128 moradores até hoje morreram quatro idosos.

No Lar São Vicente de Paulo que ainda não se adequou para ser considerada uma ILPI, nós tínhamos 24 idosos, sendo que quatro deles já faleceram. O Conselho conseguiu um geriatra para ir para lá e conseguimos medicação. Eles são atendidos por uma UBS e recebem aquela atenção primária., vacinação e outros. Na verdade o que está valendo nesse momento são os contatos pessoais, porque se a gente for seguir o trâmite dos ofícios nesse momento, nada vai acontecer.

Jornal da 3ª Idade – Como o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa está ajudando nesse momento?

Kennya Mota Brito – O CNDI tem mandado subsídios de como atuar nas ILPI, o que é importante, mas não é uma ação imediata, porque esses protocolos demoram. Não é uma ação imediata. Tenho procurado acompanhar o Toninho (Antônio Fernandes Toninho Costa, Secretário Nacional de Promoção e Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos) nas lives que ele tem feito e pedindo para ele falar com as nossas autoridades para tomar providências imediatas.

A verdade é que nós estamos com idosos morrendo em casa, sem assistência. O SAMU não chega, porque eles não estão dando conta. Os idosos que já tem comorbidades começam a passar mal e não tem para aonde ir, já que todos os equipamentos estão lotados. Tem muito idoso entrando e não saindo, porque mesmo os que não estavam com a Covid-19 acabam se contaminando, porque o local ou mesmo o profissional que atende está contaminado. 

Jornal da 3ª Idade – Apesar de todo esse quadro dantesco, o que especialistas estão dizendo na TV é que a pandemia ainda não atingiu as populações mais pobres, isso é verdade?

Kennya Mota Brito – Essa doença ainda não chegou nas populações mais pobres. Nos bairros mais carentes o comércio continua funcionando normalmente. As pessoas não cumprindo o isolamento recomendado e, na verdade, não atingimos o pico da contaminação, segundo as estatísticas, o que é ainda mais preocupante.

Jornal da 3ª Idade – Parece que o Amazonas vive no momento uma situação muito particular, que de certa forma está fora das próprias iniciativas de apoio do CNDI e da recém-criada Frente Nacional de Fortalecimento das ILPI.

Kennya Mota Brito – As realidades muitas vezes se impõe de forma diferente nesse imenso Brasil. Como todas as regiões têm muitas ILPI o esforço dos conselhos estaduais nesse momento estão voltadas para essas instituições, por que nelas estão idosos mais vulneráveis. Nossa situação aqui é inversa. Nosso maior problema aqui é o idoso pobre, o que está na comunidade, sem qualquer tipo de abrigamento e apoio nem formal, nem informal. Quem está abrigado de qualquer maneira está protegido.

Jornal da 3ª Idade – O Conselho Estadual do Idoso do Amazonas tem um levantamento de todos os trabalhos com idosos? Como vocês tão identificando as populações mais velhas e suas necessidades?

Kennya Mota Brito – Na verdade, nós ainda não temos um mapeamento dos idosos da comunidade. Como nos acompanhamos um projeto chamado Idoso Ativo, da SEJUSC (Secretaria de Estado da Justiça, Direitos Humanos e Cidadania) que reúne 45 grupos, com uma média de 60 pessoas. Através deles é que a gente tem como saber as principais demandas. Sabemos que  muitos idosos estão na comunidade desvinculados de qualquer trabalho: são eles que mais nos preocupam. A Secretária de Justiça e Cidadania, Carol Braz, a quem o CEI-AM está ligado, que nos dava muito apoio, também está adoecida em isolamento. Também a Secretária executiva do Idoso, a Franciane Alves, que também está afastada.

Jornal da 3ª Idade – No meio de toda essa crise sanitária vocês ainda estão vivendo uma crise política com o pedido de impeachment do governador, aprovado ontem na Assembleia Legislativa do AM.

Kennya Mota Brito – É um momento especialmente muito difícil para todos nós.

Dados sobre a Covid-19 no Amazonas em 2/5/2020

Dos 6.062 casos confirmados no Amazonas, 3.658 são de Manaus (60,3%) e 2.404 do interior do estado (39,6%). 64 óbitos estão em investigação e 31 foram descartados para o novo coronavírus. 

O boletim aponta que 3.474 pessoas com diagnóstico de Covid-19 estão em isolamento social ou domiciliar. 1.770 pacientes já se recuperaram da doença.

Entre os casos confirmados de Covid-19 no Amazonas, há 317 pacientes internados, sendo 152 em leitos clínicos (52 na rede privada e 100 na rede pública) e 165 em UTI (86 na rede privada e 79 na rede pública).

Há ainda outros 856 pacientes internados considerados suspeitos e que aguardam a confirmação do diagnóstico. Desses, 630 estão em leitos clínicos (240 na rede privada e 390 na rede pública) e 226 estão em UTI (131 na rede privada e 95 na rede pública).

Além da capital, outras quatro cidades concentram os maiores números de contágio: Manacapuru (508); Parintins (196); Iranduba (146)e Itacoatiara (133).

Leia entrevista com a presidente do CEI-AM na época da 5ª Conferência Estadual do Idoso de 2019