É tempo de refletir e também de criar. Ver para coletivizar por Délton Esteves Pastore

Jamais pensei que minha geração passasse por um momento como o que atravessamos, o da pandemia, que levou ao isolamento social, pela quarentena, milhares de pessoas e muitas nações.

Não há muito que tergiversar, pois essa, é uma travessia que remonta ao verdadeiro teste introspectivo e de responsabilidade de cada um.

Sempre considerei sermos seres solitários, pois, nascemos, vivemos e morremos na mais pura individualidade e unipessoalidade.

A vida em dado momento é substituída pelo óbito, mas remanesce algo que não mais se pode tocar: a virtude da existência de cada um. Quantas pessoas são por nós lembradas com alegria, ternura e gratidão!

Nesses tempos de quase clausura pouco se vê, muito se ouve. As pessoas entenderam a gravidade da situação. Muitos se mantêm isolados. Outros, precisam se deslocar para sobreviverem.

Preocupações à parte, é tempo de refletir e também de criar. É preciso realizar.

Embora sempre tenha apoiado o trabalho maciço dos sessentões em diante – os da 3ª, 4ª, 5ª idades para frente, buscando estimular os empregadores para sua admissão, independente do gênero, pois, além de contarem com a larga experiência e agradável vivência deles, passariam a desenvolver um belíssimo ato de cidadania, pois, a idade não retira e jamais retirará a condição de sujeitos de direitos, que todos somos. Mas, ao mesmo tempo, não é possível esquecer da atual e latente falta de oportunidades e dos que vivem em situação de vulnerabilidade, muitos dos quais nas casas de repouso espalhadas pela capital do meu estado, em favor de quem nunca afastei minhas preocupações e ações.

Movido pelo mesmo espírito com o qual busco me conduzir nos árduos temas que a vida apresenta – afinal é preciso ter virtudes – precisamos prosseguir e somar.

Como se estivéssemos todos em um mesmo barco, cada qual responsável por um remo, com ou sem as pessoas que escolheu e que o destino lhes impôs, é preciso se conduzir a paragens seguras. Tudo passa.

Como numa daquelas incríveis viagens de Amyr Klink, navegador famoso e destemido ao lembrar que ao se preparar para uma viagem náutica, do Brasil para a Antártica, é preciso planejar. Os preparativos não são sem razão ou inúteis, tanto que sua logística lhe conduziu para três anos depois, porque como disse era preciso calcular adequadamente “suprimentos, diversão, alegria, tristeza, roupas, energia, água, coleta de esgoto, licenças, autorizações, meios de reparo para nós e terceiros, meios de comunicação, tudo. Quando saímos do píer para a Antártica, estamos vivendo três anos para a frente” (Não Há Tempo A Perder em depoimento a Isa Pessoa, Rio de Janeiro: Tordesilhas, 2016, p. 97).

Da janela que não se vê, é possível constatar situações para as quais todos podem e devem planejar, como os fenômenos biológicos universais e vibrantes, cuja condução está nas mãos de cada um para o alcance de terra firme.

Nesses tempos, já estamos navegando em mar grosso, alguns há mais, outros há menos tempo, mas apesar do personalismo a que antes me referi a solidariedade humana pede passagem, e tem se destacado nesses muitos dias de agitação como valor sublime, indispensável e universal.

Coletivismo que sempre se apresentou a cada um, mas que agora se mostra singularmente relevante e estratégico para que todos se ponham, quanto antes, em porto seguro, do ponto de vista físico e mental.

Planejemos todos os dias essa viagem, para que nada falte a cada um, nem suprimentos, nem ilusão, nem esperança, nem fé, nem diversão, nem tristeza, nem alegria e redenção.

Sem dúvidas, entramos para a história e deixaremos esse legado às futuras gerações, o que será de grande relevância.

Délton Esteves Pastore é Doutor e Mestre em Direito Processual Civil pela Universidade de São Paulo, Procurador de Justiça Cível do Ministério Público de São Paulo, ex-Promotor de Justiça de Direitos Humanos, área do Idoso da Capital, integrante da Rede Solidária de Formação em Envelhecimento da Pastoral da Pessoa Idosa.

Délton Esteves Pastore  foi convidado pelo Jornal da 3ª Idade para escrever na série  Minha Janela para a Rua, inspirado na coleção “Minha Janela para o Mundo”, organizada pelo jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, que lá está publicando vários escritores e filósofos de todo o mundo escrevendo sobre o que veem das suas janelas durante o período de isolamento motivado pela pandemia da Covid-19Aqui estamos convidando pessoas que se destacaram, nas últimas décadas, na defesa dos direitos dos idosos no Brasil.

Série Minha Janela Para o Mundo no Frankfurter Allgemeine Zeitung

Normandia- Não tenho medo, porque tudo isso me parece muito irreal, por Leila Slimani

Dublin- Homen no Porão, por  John Banville 

Na bicicleta para lugar nenhum, por Richard Ford, East Boothbay, Maine

Milão – Uma era está chegando ao fim aqui, por Antonio Scurati, Milão

Estocolmo – Minha mesa é um tapete voador, por Aris Fioreto

Suiça – Vou manter este post até o final, por Thomas Hurlimann