Delegada Isilda Vidoeira, fala da violência contra idosos na pandemia e Operação Vetus

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital.  Foto: divulgação
Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital.  Foto: divulgação

Para fechar o Junho Violeta, alusivo ao Dia Mundial de Conscientização da Violência contra a Pessoa Idosa, adotado pela ONU, o Jornal da 3ª Idade conversou com a Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital. 

A policial representou o Estado de São Paulo na Operação Vetus, deflagrada em dezembro de 2020 pelo governo federal, envolvendo cerca de 10 mil policiais civis, das 27 unidades da federação. O número de denúncias de violência contra idosos, explodiu nos primeiros meses da pandemia. Num único mês foram registradas mais de 17 mil denúncias contra violações de direitos dos idosos, em todo o país, mais de 5 mil foram do Estado de São Paulo. Somente no primeiro trimestre de 2021 foram 33,6 mil casos.

Formada em Direito, ela conta que desde a universidade sempre teve a intenção de  ser delegada de polícia. Casada também com um delegado, ela tem 62 anos e não tem filhos. Trabalhou em várias delegacias da Capital, em diferentes instâncias da Polícia Civil, mas destaca nos seus mais de 30 anos de trabalho, a formação do Grupo de Apoio a Proteção das Escolas e a Delegacia da Mulher. Para ela, o trabalho na Delegacia do Idoso, que já soma 7 anos, é seu último desafio, antes de se aposentar, já que na sua opinião falta visibilidade diante dos próprios idosos.

Jornal da 3ª Idade As Delegacias do Idoso foram criadas em 1992 com uma proposta de ter acoplado ao trabalho, profissionais como psicólogos e assistentes sociais. Na época muitas policiais femininas foram estudar Serviço Social motivadas pela criação de DI. Elas não mantiveram esse perfil. A senhora não acha que deveriam continuar tendo?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – As delegacias do idoso nasceram antes do Estatuto do Idoso, então elas tinham um perfil diferente. Os policiais não tinham a capacitação que hoje recebem para trabalhar com os idosos. Delegacia de Polícia é antes de tudo um lugar de policiais. Eles não são assistentes sociais nem psicólogos, mas devem ter um treinamento adequado. É uma delegacia de proteção aos idosos, então o que precisa é dar capacitação para os policiais. No entanto, existem profissionais dessas áreas atuando, só que eles fazem uma trajetória diferente, prestam concurso na Secretaria da Segurança Pública e são treinados pela Academia da Polícia Civil, na USP, para trabalharem nas delegacias especializadas. Muitas não tem, até por conta dos salários, os próprios profissionais fazem outras opções. Eu sou privilegiada, pois, na minha Delegacia, na Rua Itapicuru, em Perdizes, tenho um assistente social atuando. A gente vem pedindo a volta dos concursos. O assistente social na DI faz um relatório final, pois, não é preciso passar pelo CRAS, entra direto como oficial.

Jornal da 3ª Idade – Essa capacitação está acontecendo? Os policiais estão sendo treinados para trabalhar com os idosos?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – A diferença de uma delegacia especializada é o acolhimento. O idoso que procura uma delegacia de polícia está procurando o apoio que não tem em casa. Tem o idoso que nem consegue procurar essa ajuda. A DI é uma delegacia como as demais nos serviços, mas tem que ter capacitação. A capitulação dos crimes, para as DI, no Estatuto do Idoso, estão nos Artigos 95 a 108.

Jornal da 3ª Idade – Qual o principal papel da Delegacia do Idoso, no entendimento da senhora? Ela deve fazer um trabalho de prevenção ou de execução. É sabido que muitos idosos não conseguem denunciar seu agressor, quase sempre uma familiar.

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Todos os dias a gente faz de 7 a 10 relatórios. São feitas visitas na casa dos idosos para saber das condições em que vivem e como estão sendo tratados. Esse relatório vai para o juiz, quando já está instaurado o inquérito. Quando se trata de somente denúncia ele servirá de base para saber se é verdade o que foi apontado. Ajudamos muita gente, as pessoas nem imaginam quanto.

Jornal da 3ª Idade – Quantas delegacias existem no Estado de SP? Quantas existem na Capital?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – São 20 Delegacias de Proteção ao Idoso, sendo 8 na Capital e 12 no Litoral e Interior.

Jornal da 3ª Idade – Não são poucas? O Estado possui 645 municípios, dos quais 80 possuem uma população superior a 100 mil habitantes, que somam mais de 34 milhões de pessoas. Nos outros 565 municípios, a população é de 10.827.925 moradores.

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Poderia ter mais, mas não muito mais. Na Capital o que tem é suficiente.

Jornal da 3ª Idade – Na Capital temos 93 Distritos. As 8 Delegacias do Idoso são suficientes?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Sim. São 8 delegacias seccionais, sendo cada uma responsável por 16 outras delegacias. É preciso entender que todas as delegacias podem atender aos idosos. Às vezes a pessoa tem uma delegacia perto da sua casa e não tem sentido se deslocar para uma DI. A diferença é que uma delegacia comum atende ao bairro, enquanto a DI atende toda a Região que está lotada. A 23ª Delegacia, onde está a minha DI, só atende ao bairro de Perdizes, mas eu atendo toda a Região Oeste.

Jornal da 3ª Idade – Com a pandemia, os fóruns da pessoa idosa, em diferentes cidades de São Paulo, passaram a apontar um aumento de violência, sabidos de maneira informal. A senhora sabe se nas delegacias de idosos isso foi oficialmente sentido?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Esse aumento não foi só em São Paulo, aconteceu em todo o Brasil e foi registrado por todas as delegacias de polícia. Aumentou muito os crimes contra os idosos e as violações de direitos. Os idosos passaram a ficar presos em casa. Em São Paulo em 2019 houve 3950 denúncias. Em 2020, já em plena pandemia, foram  mais de 6 mil. Denúncias e a maioria não tem boletim de ocorrência, porque o idoso não quer denunciar o seu familiar. A maioria se refere a crimes financeiros. A maioria das agressões é por causa de dinheiro.


Jornal da 3ª Idade – A senhora é a delegada que representou São Paulo, na Operação Vetus, do Governo Federal. O que é exatamente esse programa e, na sua opinião, o que pode melhorar para os idosos de SP com essa operação?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – A Operação Vetus foi criada pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos e o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O que motivou foi a explosão de denúncias registradas no Disque 100, durante a pandemia. Num único mês foram registradas mais de 17 mil denúncias contra violações de direitos dos idosos, em todo o país, mais de 5 mil foram do Estado de São Paulo. A Operação Vetus envolveu cerca de 10 mil policiais civis, de todos os Estados e do Distrito Federal. Ela começou dia 1º de outubro e foi deflagrada em 4 de dezembro do ano passado. Foram feitas várias reuniões em Brasília, envolvendo a polícia militar e a polícia federal. As denúncias foram distribuídas e todas as denúncias foram atendidas. O que pedimos é que essa operação seja institucionalizada e que não, seja só uma operação desse governo, mas uma Operação de Estado. Está sendo organizada uma segunda fase, para os próximos meses, para ser deflagrada no 1º de outubro, Dia Internacional do Idoso. Foi a primeira vez que se organizou com todos os Estados pensando em criar formas de atuação comuns. Foi criada uma Comissão que vai continuar se reunindo com o governo federal. Agora, nesta fase, as representações serão por regiões. Fiquei representante da Região Sudeste.

Jornal da 3ª Idade – O que essa Comissão pretende mudar no atendimento aos idosos?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Nas últimas reuniões já pontuamos as principais fragilidades da legislação, às necessidades de recursos materiais e logísticos, às necessidades de capacitações e boas práticas da polícia judiciária. Existe uma unanimidade na alteração da legislação e no aumento da medida protetiva ao idoso. Precisamos alterar o Estatuto do Idoso dando uma medida protetiva nos moldes da Lei Maria da Penha. Eu não consigo tirar um idoso de dentro de casa, porque essa medida protetiva não está prevista no Estatuto do Idoso. Temos que ter um protocolo que uniformize o atendimento de todas as delegacias do idoso do país. A possibilidade da polícia fiscalizar as ILPI também entra na alteração do Estatuto do Idoso.

Jornal da 3ª Idade – A senhora tem algum contato com os movimentos de idosos?

Dra. Isilda Cristina Vidoeira, Delegada de Polícia Titular da Delegacia de Polícia de Proteção ao Idoso, no bairro de Perdizes, na Zona Oeste da Capital, em SP – Eu faço muita palestra e explico como a Delegacia do Idoso funciona. Antes da pandemia recebia convites dos centros de referência e dos fóruns. Agora essa parte de palestras está parada, por causa do isolamento necessário. No entanto, as delegacias de idosos estão abertas para atendimento. Qualquer pessoa que presencie um crime de violação contra o idoso e não queira ser identificado pode ligar no Disque 100, que receberemos a denúncia.