Jornalismo profissional pioneiro na pesquisa e reportagens sobre a terceira idade no Brasil

Jornalista Herminia Brandão recebendo a condecoração do 9º Prêmio Gutemberg de Jornalismo das mãos de Claudionor Correa Leão, diretor superintende em exercício, de São Miguel Paulista. Foto: jornal3idade.com.br
Jornalista Herminia Brandão recebendo a condecoração do 9º Prêmio Gutemberg de Jornalismo das mãos de Claudionor Correa Leão, então diretor superintende da Associação Comercial de São Miguel Paulista.            Foto: jornal3idade.com.br

Por Hermínia Brandão, editora Jornal da 3ª Idade

No começo dos anos 90, um jornalista querido, o saudoso José Roberto Alencar, com quem trabalhei na Folha de S. Paulo me apresentou um grupo de psicólogas. Elas tinham acabado de abrir uma empresa para acompanhar idosos em teatro e passeios.

Por vários motivos, estavam tendo problemas para divulgar, pois, sempre que contavam da natureza do trabalho escutavam que o negócio dificilmente vingaria, já que no Brasil não existia mercado para produtos e serviços para idosos.

Eu mesma titubeei diante dos projetos delas. Foi quando uma começou a contar de tudo que já existia naquele período na Europa para os mais velhos. Elas também falaram muito sobre os trabalhos que já estavam sendo desenvolvidos no Brasil.

Confesso que fiquei abismada de saber que, já em 1993, existiam dezenas de faculdades para terceira idade espalhadas pelas principais cidades do país, que cinco Estados tinham Conselho Estadual do Idoso. O SESC já fazia escolas abertas desde os anos 60 e até um movimento político para a criação de uma legislação específica era debatido em todo o Brasil.

Pensei então: se me julgo bem informada e não conheço nada disso, logo muitos também não devem conhecer.

Fiz uma reportagem a respeito, como “freelancer” para uma publicação e a repercussão foi nacional e enorme, principalmente se considerarmos que não tínhamos, então, redes sociais e nem ferramentas “online”.

Fiquei encantada com os contatos que descobri, com as novas fontes que criei e com o caminho de pautas inovadoras, praticamente inexploradas para os padrões da época. Como se diz nos bastidores da imprensa “fui mordida pela mosca azul”. 

Comecei a pesquisar a respeito e quando me dei conta tinha um cadastro de 96 páginas nas mãos. Ofereci para as psicólogas, fontes da minha inspiração a parceria no lançamento de um livro que servisse de roteiro no seguimento. Elas, que já tinham desfeito o grupo, não se interessaram.

Fui em frente e no início de 1996 já tinha na gráfica a primeira versão do Guia Brasileiro da 3ª Idade. Nunca mais sai da área.

Por mais um acaso da história, em maio e junho de 1996 reportagens do jornal o Globo, denunciaram centenas de mortes de idosos, por maus tratos, em duas casas de repouso no Rio de Janeiro: na Clínica Santa Genoveva e na Clínica Campo Belo.

A repercussão foi internacional e o governo brasileiro chefiado pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso, para “limpar a barra” organizou um evento com mais de 100 países participantes, em Brasília, na sede do Itamaraty. Nele foi finalmente oficializado a regulamentação da Política Nacional do Idoso, que já estava aprovada desde 1994, no Governo Itamar Franco.

Como a única publicação que existia no Brasil, listando todos os serviços e produtos voltados para idosos, era o Guia Brasileiro da 3ª Idade, fui convidada pelo Dr. Alexandre Kalache, coordenador desse evento e na época chefe do Programa Mundial de Envelhecimento da ONU, para distribuir exemplares naquele encontro.

Assim nosso trabalho, até então restrito aos grupos de terceira idade e movimento de aposentados ganhou repercussão nacional e começou a entrar na história dos trabalhos com envelhecimento.

Em 2021 vamos comemorar 27 anos de jornalismo voltado para a pesquisa e estudo sobre o envelhecimento. Serão 25 anos da primeira edição do Guia Brasileiro da 3ª Idade e 18 anos do Jornal da 3ª Idade. 

Continuamos com muito trabalho e com novos projetos.

Hermínia Brandão