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Entrevista com o médico Fábio Campos Leonel que há dois meses é presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo

 

 

O médico Fábio Campos Leonel, geriatra, especialista em gerontologia e cuidados paliativos, novo presidente da SBGG de São Paulo. Foto: divulgação
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Desde julho passado que a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia de São Paulo tem um novo presidente. O médico Fábio Campos Leonel, de 42 anos, é quem vai estar à frente dos trabalhos da entidade até 2028, com uma diretoria também renovada.

Com sua origem acadêmica na Faculdade de Medicina de Catanduva, ele é especialista em clínica médica pelo Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo (IAMSPE), especialista em geriatria e gerontologia pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e especialista em cuidados paliativos pelo Hospital Sírio-Libanês. Nos últimos anos acumulou experiência também como professor em outras entidades, como na pós-graduação em gerontologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC).

Na entrevista que concedeu ao Jornal da 3ª Idade, ele falou do seu interesse em aproximar a SBGG dos movimentos populares e de entidades que atuam na defesa dos direitos das pessoas idosas.

Jornal da 3ª Idade de SP, por Hermínia Brandão – Por que o senhor, sendo um médico jovem, escolheu a geriatria?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Desde a faculdade que venho olhando para o processo de envelhecimento.  Estou formado desde 2007 e, desde então, os pacientes mais frágeis, aqueles que precisavam de mais assistência médica, sempre foram os que mais me interessaram. Nessa direção, o público da pessoa idosa realmente foi o que mais chamou a atenção. Com eles, não é só uma consulta que vai fazer o paciente ficar saudável. Na verdade, precisa de prevenção e de um acompanhamento.

Jornal da 3ª Idade de SP Ainda hoje, no geral,  os profissionais que gostam de trabalhar com idosos são motivados mais pela experiência familiar. Alguns porque conviveram com os avós ou por serem filhos de profissional da saúde. O que mais lhe inspirou?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SPNo meu caso, foi um pouco dos dois. As nossas experiências familiares também são levadas em conta. Não sou filho de profissional da saúde, mas tenho uma irmã que é médica, mas ela é minha contemporânea. Nós nos formamos quase juntos. A escolha foi por vontade própria mesmo. Sempre admirei a forma como o geriatra trata o paciente idoso como um todo. Ainda na residência de clínica, comecei a estudar o processo de envelhecimento. Optei por fazer um estágio em geriatria para ver como era o dia a dia e me apaixonei. Percebi que era ali mesmo onde eu queria estar.

Jornal da 3ª Idade de SP – Ser atendido por um médico que tenha esse olhar para “o todo” ainda não faz parte da cultura da pessoa idosa e da família, seja do usuário do SUS ou mesmo particular. Buscar um especialista direto ainda é a preferência das pessoas. Como o senhor pensa que pode contribuir para mudar isso?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP Nos últimos anos, a geriatria deu um avanço muito importante para marcar o território e mostrar a importância do profissional que lida com o envelhecimento. O geriatra e o profissional de gerontologia estão sendo cada vez mais requisitados. E isso é uma lei de oferta e procura. Qual é o nosso pano de fundo?  São as pessoas ficando mais velhas, a população vivendo mais. Isso não significa ter mais qualidade de vida. Envelhecemos muito rápido no Brasil, se comparado com outros países, principalmente os europeus. Essa aceleração do processo de envelhecimento fez com que a gente não se preparasse para o “boom” que a gente teve de idosos. Nesse sentido, estamos procurando formar mais profissionais que tenham capacidade de lidar com o processo de envelhecimento.

Jornal da 3ª Idade de SP – Desde 1996, quando estive na IX Jornada Brasileira de Geriatria e Gerontologia, na Pousada do Rio Quente, em Goiás, que ouço a SBGG e a academia destacarem a importância do diagnóstico integral. No entanto, não se percebe muita evolução nessa direção, principalmente no SUS, no atendimento mais amplo da população. Por que isso caminha tão aquém do processo acelerado do envelhecimento?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SPEssa mudança é que ainda não está tão acelerada. São vários motivos e um dos principais é a falta de profissional capacitado. Vivemos um momento de busca por formação, tanto de médicos geriatras como de profissionais da gerontologia, para disseminar essa cultura gerontológica. Esse é um papel muito relevante que a SBGG tem como objetivo, que é difundir o ensino médico e gerontológico para mais profissionais. 

Jornal da 3ª Idade de SP – Quantos geriatras temos no Brasil? A maioria sempre esteve em São Paulo. Continua?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP No último levantamento demográfico que teve de médicos, o Brasil tinha 3.167 médicos geriatras. Então, esse número representa cerca de 1,49 geriatras para cada 100 mil habitantes. É um número muito baixo, um grande déficit de profissionais em relação à recomendação da Organização Mundial de Saúde.

Jornal da 3ª Idade de SP – A questão também é que, mesmo os que se especializaram, só querem ficar nos grandes centros. Como trabalhar isso?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Uma questão é a formação. A segunda coisa importante é colocar o geriatra no lugar em que ele vai ser mais útil. Porque, quando se trata de oferta e demanda, é preciso  tentar direcionar o perfil adequado dos pacientes para tratar com o geriatra. No Brasil não tem geriatra suficiente.

Jornal da 3ª Idade de SP – Não seria importante que, desde a porta de entrada do SUS, a pessoa idosa pudesse contar com a possibilidade de se consultar com um médico geriatra? 

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Não é um papel do profissional geriatra, por exemplo, estar na atenção básica de saúde. Acredito que esse é o lugar do médico de família. Esse médico tem que ter capacitação para atender pacientes idosos. Quem vai fazer essa capacitação é o profissional da geriatria. O profissional que está na ponta, que muitas vezes é o médico de família, precisa ter a noção de que existem vários graus de dependência, de fragilidade. E esse perfil de paciente precisa ser identificado na atenção básica de saúde e ser direcionado para uma atenção secundária ou terciária, que aí é a especialidade do geriatra. 

O paciente pode passar por vários especialistas, mas quem é o mestre, o regente dessa orquestra é o geriatra. Por quê? Porque ele tem o domínio do processo de envelhecimento. Muitas vezes o paciente passa com o cardiologista, com o endocrinologista, com o nefro, e cada um prescreve os melhores medicamentos para a sua área. Poucos sabem analisar a interação medicamentosa entre eles, quais vão ser os benefícios.

Jornal da 3ª Idade de SP Se em todo o mundo a pauta que mais cresce é o envelhecimento, por que os estudantes de medicina não se motivam a seguir? Esse é o mercado futuro.

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP –  São vários pontos interessantes para se discutir em relação à formação de geriatras e gerontólogos. A primeira, bem evidente, é o sistema de remuneração atual. Num plano de saúde ou numa operadora de saúde, a agenda do médico é para atender quatro pacientes por hora. Em geriatria, isso é impossível de fazer. Gastamos muito mais tempo para fazer uma avaliação geriátrica ampla, para conversar com o paciente, examinar o paciente, ver a interação medicamentosa.

O recurso que a operadora passa para o médico é igual para outros especialistas.  O geriatra merece ter um pagamento maior em função dele gastar mais tempo com cada paciente. Outra coisa que precisamos analisar é o desfecho. Quanto à consulta com o geriatra, é eficaz? É efetiva? Porque, quando a pessoa idosa faz um acompanhamento certinho com o mesmo médico, com o geriatra acompanhando, ela tem menos chance de ter desfechos ruins, tipo internação, passagem para o pronto socorro, etc. Então, na verdade, precisamos quebrar esse paradigma.

Jornal da 3ª Idade de SP – O senhor está afirmando que a pessoa idosa que é acompanhada pelo geriatra tem menos chance de usar outros serviços do plano de saúde, como internações e emergências. Isso não deveria ser uma vantagem para as seguradoras de saúde?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Precisamos deixar muito bem claro para a sociedade que fazer a prevenção, fazer um acompanhamento é muito melhor do que você ficar tratando as intercorrências agudas. E quem faz isso muito bem, quem gerencia esse cuidado de vida é o geriatra. Em pouco tempo teremos muitos idosos procurando médicos geriatras e não teremos para todos. O aumento dessa demanda vai aumentar a remuneração também.

Jornal da 3ª Idade de SP – Existe no Brasil alguma cidade considerada um bom modelo na área da geriatria e da gerontologia?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – O que precisamos é de política pública. Dou como exemplo a cidade de São Paulo, que, para mim, tem uma visão para a longevidade. Por quê? Porque aqui  encontramos vários instrumentos que ajudam, ferramentas, para atender a população idosaA gente tem, desde a atenção primária, a atenção básica, a atenção secundária, a atenção terciária, vários dispositivos, tanto do município quanto do estado, para atender essa população. Aqui a gente tem um termo de referenciamento, desde a UBS até passar por especialista geriatra na atenção secundária e até chegar na atenção terciária.

Jornal da 3ª Idade de SP Certamente São Paulo é um exemplo de ter os termos e as ferramentas, criados para o atendimento, mas nem todas chegam à maioria da população.

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Aqui em São Paulo temos regiões muito bem estruturadas para o atendimento aos idosos. Temos o CRI, que é o Centro de Referência do Idoso, e temos locais para atividade física. Também temos lugares em que o índice de vulnerabilidade é muito grande e as pessoas ainda não têm acesso a isso. Por que considero exemplo? Por oferecer esses serviços, a continuidade do cuidado fica muito melhor, o paciente fica muito mais assistido. Então, isso para mim é como se fosse um embrião do que a gente pode alcançar. Por isso, acredito que aqueles que são atuantes na causa da longevidade, do bom envelhecer, precisam divulgar as boas práticas. As atividades que são exitosas  precisam ser replicadas.

Jornal da 3ª Idade de SP – O senhor está há dois meses na presidência da SBGG e, nas suas outras entrevistas, demonstrou uma vontade de se aproximar dos movimentos extra academia, extra área científica. Na gerontologia da SBGG já se sentia isso com o caminho aberto pelo Diego Miguel, mas os médicos sempre foram refratários à aproximação com os fóruns, por exemplo.

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – A SBGG precisa ter um papel mais atuante, não só com a OAB, com quem acabamos de firmar uma parceria, por nossa iniciativa, mas com todas as entidades que são representativas e que defendem o bom envelhecimento. A Caroline Saladini (fisioterapeuta que assumiu a presidência de Gerontologia da SBGG) tem uma visão muito parecida com a minha, por isso foi muito estratégico essa nossa união. Fizemos um planejamento estratégico pensando no que podemos melhorar nesses dois anos que estaremos à frente da entidade. Entre os temas prioritários, entrar em contato com a comunidade é um dos nossos principais objetivos.

Jornal da 3ª Idade de SP – O senhor pode contar com o Jornal da 3ª Idade nessa empreitada.

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Fiquei muito feliz quando você me convidou para a gente ter esse bate-papo, justamente porque um dos principais objetivos é alcançar não só o profissional médico, o gerontólogo, mas sim a sociedade como um todo. Precisamos sensibilizar desde o jovem, a criança, o adulto e chegar no idoso também. Pensamos em diversas maneiras de atingir mais a comunidade, a sociedade. 

Jornal da 3ª Idade de SP – Quando vocês procuraram a Comissão da Pessoa Idosa da OAB-SP, estavam com qual expectativa?

Dr. Fábio Leonel, presidente da SBGG-SP – Temos a esperança  que essa parceria traga muitos benefícios no sentido de ter mais visibilidade à questão da violência contra a pessoa idosa, dos direitos que a pessoa idosa tem e da visibilidade que a gente potencialmente deveria ter. A OAB tem um trabalho de promover ações visando o bom envelhecimento. No nosso planejamento estratégico para os próximos dois anos, o eixo 3 é exatamente o que propõe o relacionamento com a comunidade. Queremos transformar a SBGG em um instrumento de defesa da longevidade na sociedade paulista. Queremos alcançar mais pessoas. Queremos “brigar” pelo acesso à saúde, que hoje em dia é muito caro.  Criamos dois novos canais de comunicação que acredito serão muito importantes: “SBBG Comunidade”  e “SBGG Perto de Você”. Queremos colocar promoção em envelhecimento saudável, promoção de saúde, orientação para a população. Usar todas as mídias possíveis para chegar onde as pessoas estão. Tínhamos o GERP Comunidade, que só fazíamos na época do Congresso Paulista de Geriatria e Gerontologia. A ideia é que isso seja uma frente de ações contínuas.