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ILPI Expo realizada em São Paulo reuniu profissionais, estudiosos e gestores de residenciais para idosos

por Hermínia Brandão
herminia@jornal3idade.com.br

A moradia coletiva de pessoas idosas do Brasil em instituições particulares, públicas ou filantrópicas cada vez mais será uma realidade no país. Com mais de 33 milhões de pessoas com 60 anos e mais na população brasileira, já são muitas as faces dessa demanda que, como tantas outras, carece de mais discussão.

Todas as famílias terão condição de continuar cuidando dos seus idosos quando eles tiverem problemas de mobilidade ou mesmo problemas de demência?

As pessoas idosas homossexuais que não têm família encontram instituições acolhedoras para se instalar?

As pessoas idosas podem continuar exercendo seu direito de ir e vir, mesmo morando num residencial?

Por que as questões de moradia das pessoas idosas devem ser somente da responsabilidade e encargos das famílias e não também do Estado?

Mesmo os residenciais para quem tem alto poder aquisitivo estão preparados para o perfil dos idosos da atualidade?

 Essas foram algumas das importantes questões debatidas num evento  realizado nos dias 18 e 19 de agosto em São Paulo, organizado pela Plataforma Trevoo, capitaneado pela diretora executiva, Eliz Taddei. A ILPI Expo Fórum buscou jogar luz sobre os temas e reuniu cerca mil pessoas, entre gestores, profissionais de saúde e de assistência social, órgãos de vigilância, entidades e prestadores de serviços no Centro de Convenções Frei Caneca.

Como em tantas outras áreas, quem pode pagar caro já encontra lugares com todos os serviços adequados. Quem não se planejou, ou sequer teve ao longo da vida essa oportunidade, está correndo o risco de se abrigar em lugares muitos ruins. Há ainda o mito, muito presente no imaginário popular, de que um lugar de idosos é “asilo para as pessoas terminarem seus dias”.

A desigualdade do Brasil reflete diretamente nas instituições. Temos ILPI para um público que pode pagar 12 mil reais, que o Ministério Público chega para fiscalizar e está tudo certo. Existem outras em que as pessoas estão pagando o que recebem de um BPC de 1 salário mínimo, numa instituição precária. Pior ainda são as clandestinas, que não oferecem nenhuma segurança e nem têm equipe técnica. Então o que é uma conquista da humanidade, o poder viver mais, no Brasil já é um problema, disse o Promotor Alexandre Alcântara, da 1ª Promotoria de Justiça de Defesa do Idoso e da Pessoa com Deficiência do Ministério Público do CE.

Para a maioria que trabalha na gerência de uma instituição, com quem o Jornal da 3ª Idade conversou durante o evento, o maior problema ainda está nos recursos humanos.

Manter uma equipe técnica totalmente dentro dos padrões ideais é muito difícil, os custos são muito altos. A nova regulamentação para auxiliar de enfermagem está fazendo com que os quadros sejam reduzidos. Contratar equipes auxiliares para uma ILPI é outro problema. A maioria dos cuidadores que estão disponíveis no mercado fizeram cursos breves e não tem uma verdadeira qualificação para trabalhar com idosos. Aqueles já experientes querem trabalhar em hospitais, porque eles enxergam lá a possibilidade de carreira. Então a mão de obra é muito rotativa, o que é ruim para a empresa e para os próprios idosos, explicou Fabiana Zanon Arantes, da Casa do Idoso de Ribeirão Preto, no Interior de SP.

Existe o trabalhador informal, aquela pessoa que fez um curso rápido, que já cuidou de pessoas na sua comunidade e que chega disponível, mas não quer ser registrada, porque é aposentada ou recebe algum benefício do governo federal. Essas pessoas, principalmente nas cidades do Interior acabam sendo absorvidas, mas é um problema. Sem vínculo desistem a qualquer hora e também criam um medo para a administração, pela irregularidade, conta Natalie Nascimento, de uma ILPI de Ribeirão Preto.

João Andrade, fisioterapeuta, proprietário do Residencial Florença, com 15 anos de atuação, com seis unidades de ILPI e 120 funcionários e uma unidade só para hóspedes em tratamento paliativo, em Ribeirão Preto (a cidade com mais participantes no evento, depois da capital) tem na sua empresa plano de carreira, equipe multidisciplinar com um coordenador só para essa área diz que olhar do mercado está começando a mudar, mas ainda muito lentamente.

Não tenho grandes problemas de RH, criamos um plano de carreira e temos perspectivas de ampliação, o que preocupa é a ausência da família no processo. As pessoas idosas institucionalizadas, mesmo para aquelas que têm recursos para pagar um melhor atendimento, precisam do apoio da família e da responsabilidade do Estado, diz o gestor que é também um dos fundadores da Frente Nacional de Fortalecimento às ILPI, movimento voluntário criado em 2020, que tem a frente a médica geriatra Karla Giacomin.

O segmento das ILPIs já merecia uma feira nacional onde se pudesse ofertar aos interessados, oportunidades de negócios, conhecimentos, tecnologia, ciência e regulamentação. Com o advento da ILPIs Expo + Fórum esse sonho se realizou e com enorme sucesso. Revela-se então um claro sinal da força dessa relevante atividade social e econômica que produz envelhecimento saudável e longevidade, disse Cláudio Stucchi, advogado, consultor de ILPI, proprietário da Previner Consultoria e membro da FN-ILPI.

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